
Estando sem dinheiro a semana inteira, nada melhor que um amigo para pagar uma boa garrafa de um vinho barato. Ao som dos últimos suspiros do Cazuza em um microfone – ele que era um assumido fã dos beat – bebemos todo o liquido com maior teor alcoólico que os vinhos normais. Um fator relevante na hora de sua escolha, além, de como já mencionado, o preço completamente acessível, pelo menos para nós, naquela ocasião.
Fazia calor, mas o vinho era necessário. Iríamos ao Sarau Elétrico cujo tema seria os destruidores do sonho americano, os beat. Sofrendo pela falta de vinho e ainda restando tempo, bebemos alguns copos de vodka com coca-cola, e, alguns cigarros depois, fomos até o bar Ocidente.
O Ocidente é considerado o berço da contracultura que virou cultura de Porto Alegre. Lá passaram músicos, poetas, escritores, boêmios, estudantes, vagabundos e todos responsáveis pela cultura (contracultura?) da capital. O Sarau Elétrico é um desses eventos que tu ouves falar e sempre tens vontade de ir. Tua ânsia por um lugar onde há efervescência de idéias contraculturais é suprida pela imagem que passam do Sarau. Isso até tu presenciares e criares a própria imagem do evento.
Pagamos um real a menos na entrada, e, graças a isso, tomamos mais algumas cervejas enquanto o aguardado evento não começava.
Sempre no Sarau, os “pensadores líderes” chamam um convidado especial ligado ao tema para acrescentar algo. Dessa vez – na vez em que iriam falar sobre os beat – resolveram convidar o Iotti, aquele mesmo que faz o Radicci.
Puta merda, o que o Radicci tem de beat?
Ou seria uma enorme surpresa, ou uma enorme decepção.
Enfim, começa o evento. Professor Fischer inicia lendo um fragmento do On the Road, do Kerouac. Na seqüência, Kátia Sumam, leu um poema do Uivo, do Ginsberg. E a partir desse momento, com dez minutos desde o início, o rumo do Sarau Elétrico começou a ficar claro. Claudia Tajes anunciou que leria Bukowski. Mas o que o velho safado tem a ver com os beat? E ainda por cima, deram mais atenção para a discussão de como se pronunciava o nome do velho Buk, do que para seu texto.
Para finalizar a primeira parte do Sarau Elétrico, professor Moreno, o Riquelme do time de intelectuais do Sarau, simplesmente resolve divagar sobre a Grécia. Tudo bem que tu sejas estudioso dos tempos clássicos e tudo mais. Mas não usa isso quando a proposta era falar sobre escritores dos anos 20!
Leram mais On the Road, mais Allen Ginsberg e novamente Claudia cometeu o percalço de ler John Fante. Sendo que ele, assim como seu fã numero um, Bukowski, não é Beat.
Eis que entra o Iotti na história: “Nem sei porque vocês me chamaram mas tudo bem”, diz o criador do colono mais famoso do Rio Grande do Sul.
Enquanto o professor Moreno insiste em falar da sua adorada Grécia, Iotti se revela o melhor dos cinco participantes ao contar uma única piada.
A platéia era constituída basicamente de, pelo estilo, pessoas que idolatram figuras do rock. Mas quando Kátia Sumam teve a infelicidade de, ao ler o prefácio de um livro do Kerouac - onde nomes de influenciados pelos beat, como Bob Dylan e Jim Morrinson eram mencionados - fazer o comentário dizendo que de quantas “coisas” ele poderia tê-la poupada, fomos embora ao som dos risos do público.
E ainda perdemos o show do Jimi Joe, que deveria estar se contorcendo na cadeira enquanto ouvia tudo aquilo.
*O ambiente é lindo.
Imagem retirada sem autorização do site do Sarau Eletrico. Foto Cynthia Vanzella.
Ricardo Araujo








